Anime Friends 2018: Palestra com Guilherme Briggs

O Anime Friends desse ano trouxe um dos maiores e melhores dubladores do Brasil: Guilherme Briggs. Nascido em 25 de julho de 1970 no Rio de Janeiro, Briggs é ator, diretor de dublagem, locutor, tradutor, desenhista, blogueiro e dublador.
Como dublador, realizou dentre tantos trabalhos: A Franquia “Toy Story” (Buzz Lightyear), “Os Padrinhos Mágicos” (Cosmo), Franquia “Transformers” (Optimus Prime), Superman, entre outros.
Nesta palestra, Briggs falou um pouco sobre sua vida, seu trabalho e como sempre acolheu e foi acolhido pela plateia, muitos grandes fãs de seu trabalho, assim como de sua pessoa.

Nós da Extreme Players marcamos presença no evento e abaixo disponibilizamos uma parte da palestra com perguntas da plateia para você conferir:

Plateia: Você já dirigiu alguma dublagem no Brasil?
Briggs: Eu dirijo desde 2003, mas agora dei uma parada. A primeira direção que fiz foi a série animada “Clone Wars”, depois dirigi várias produções de dublagem como “Avatar”, os filmes “Liga da Justiça”, “Homem de Aço”, “Batman vs Superman”, “Batman – LEGO” e “Ninjago”, entre outras produções, mas dirigi muita coisa pra Warner. Direção é muito legal, mas também é muito cansativo, eu preferi ficar apenas dublando no momento, para ter mais tempo para os meus próprios projetos, para a minha família e para descansar um pouco. Eu gosto muito de dublar, é que o diretor tem que cuidar de tudo, do orçamento, de tudo aí chega uma hora que cansa mesmo.

Plateia: Qual personagem que você acha que o resultado foi melhor?
Briggs: Acho que o personagem Daggett de “Os Castores Pirados”, por eu ter colocado nele o espírito infantil, coloquei tudo o que eu tinha nele, eu mudei o texto, fiz homenagens ao meu pai que vocês nem vão perceber, meu pai, minha mãe, meu avô, amigos, eu cantarolei o tema de “Star Wars”, em um desenho da Nickelodeon! E eles nem perceberam (Briggs cantarolou o tema Marcha Imperial de “Star Wars”). Enfim, nesse personagem coloquei toda a minha infância, para mim foi o personagem mais bem feito. Eu sei que vocês pensam no Grinch ou no próprio Freakazoid, mas eu deixo para vocês, em decidirem qual foi o meu melhor personagem que pode ser o que vocês mais gostaram! Eu posso preparar um prato de lasanha e vocês gostam de quiabo! (risadas). Não, Não (mais risadas) forcei a barra, mas depende do gosto de cada um, o Daggett eu tenho no meu coração.

Plateia: O que te incomoda na sua profissão?
Briggs: Acho que o que mais me incomoda é quando o cliente não permite que nós adaptemos ou mesmo não permita que façamos mudanças no texto, isso me deixa irritado, aí temos que seguir aquele texto que vemos que podia ficar melhor, mas são coisas comuns da profissão. Prazo muito apertado também me incomoda, sinto que o trabalho ficaria melhor, caso o prazo fosse um pouco mais longo, mas isso está mudando, os clientes estão ficando mais maleáveis eles tem deixado a gente adaptar texto, como a Netflix e a HBO, que nos dão a liberdade de adaptar, se tiver que falar palavrão fala, está ficando um pouco mais solto.

Plateia: Qual o vilão que você mais gostou de dublar?
Briggs: Não me lembro de dublar muitos vilões, mas tem um que não é exatamente um vilão, o Doutor Manhattan (“Watchmen”), ele é interessante porque ele está acima do bem e do mal, ele chegou a um estagio de reflexão de analise da espécie humana, até o momento dele cansar e dizer: “cansei daqui, dessas complicações, desses emaranhados de vocês humanos, eu vou criar uma nova galáxia, novas vidas!”. Eu achei interessantíssimo esse personagem, eu pessoalmente não gosto de vilão caricato, eu diria que o Rei Julian é um vilão também, um personagem que perverte, provoca discussão, bagunça tudo. Também tem o ELE das “Meninas Superpoderosas”, que é um vilão incrível, um personagem atraente, com garras de caranguejo, cara de demônio, um ser malicioso, ele foi maravilhoso de dublar.

Plateia: Qual foi o trabalho de dublagem que você mais improvisou?
Briggs: Com certeza foi à animação “Laboratório Submarino 2021” em que eu dublava o Capitão Hank Murphy, em que na dublagem eu alterei minha voz para homenagear os Dubladores Domício Costa (dublou Dick Vigarista) e o Orlando Drummond (dublou Scooby Doo), então forcei minha voz como quando dublo o Rei Julian e a deixei parecida com a mistura dessas duas grandes vozes, assim criei a dublagem para esse personagem, mas no texto em si eu colocava muita besteira, já fui até expulso por isso em outra dublagem, mas no “Laboratório Submarino” deu para me segurar, por que também a série já tinha acabado. Mas dublador é um bicho danado! Se disser pra ele que está tudo liberado, pode improvisar, falar palavrão, a gente aproveita!

Plateia: Qual foi seu ingresso nos desenhos animados?
Briggs: Meu primeiro desenho foi “Eek! The Cat”, eu entrei em uma época que as pessoas não gostavam de dublagem, a demanda era muito baixa de dublagem. Quando fui dublar o Eek a diretora de dublagem era muito rigorosa, ela me colocava pra dublar o Eek de 08:30h da manhã até as 20:00h, só pausando para o almoço de 15 minutos e pausas rápidas se eu quisesse ir ao banheiro. Até o dia em que cheguei para o Marcio Simões (dublador do Will Smith em “MIB – Homens de Preto”) e disse: “Marcio estou cansado de dublar o Eek, fico das oito as oito e não tenho descanso”, o Marcio respondeu: Sério? Você sabe o nome disso ne?, eu respondi: “Ué dublagem?, o que fui respondido: “Não, escravidão!” (muitos risos).
Então meu começo foi muito difícil, a diretora estava errada em fazer isso, depois eu reclamei com ela aí ela aliviou. Eu fui jogado no fogo no início de carreira, era pauleira, início dos anos 90, você tinha que ser bom, aprender rápido, eu tinha ao meu lado só dubladores de peso como André Filho, Garcia Junior, Marcio Seixas, Marco Ribeiro, Orlando Drummond, eram pessoas muito boas, eu aprendi com essas pessoas e eu tinha um respeito enorme, uma atenção com eles, mas tudo isso foi muito bom pra mim, pra eu aprender, aprendi tudo que sei com pessoas muito boas e sérias também na profissão.

Plateia: Você gosta de dublar o Superman?
Briggs: Gosto bastante e o público gosta também, mas se algum dia eu não fizer o Superman não tem problema, não fiquem chateados! Vai acontecer um dia! Um dia vai chegar um filme que podem falar “não quero o Guilherme Briggs dublando o Superman! Vamos colocar outra pessoa!”. Aconteceu recentemente no seriado “Supergirl” em que o Superman aparece e quem dublou foi o Felipe Maia (dublou o Sam de “Supernatural”) que é um grande amigo, um irmão, não precisa ser necessariamente eu. Dublei o ator Dean Cain, o Superman do seriado “Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman”, pois a Globo queria que eu fizesse ele.
Eu gosto muito do Superman! Desde criança, sou apaixonado pelo Superman nos quadrinhos, mas o meu amor aumentou demais quando em 1977/78 eu assisti o ator Christopher Reeve interpretando o Superman nos cinemas, eu vi em Copacabana, estava com a minha mãe e fui totalmente arrebatado por aquele filme, ali eu acreditei que o homem podia voar mesmo, que o Superman existia e o Christopher Reeve para mim é o Superman e sempre vai ser. Além de ele ser um ator maravilhoso, ele era uma pessoa muito boa, muito querida, um excelente amigo, pai de família, um cara muito bom, então eu lamento muito até hoje a morte do Christopher Reeve.
Então, eu gosto do personagem, acredito no personagem, eu sei que algumas pessoas pensam “o Superman é um escoteiro, exibido, e etc”, mas isso foi muito por conta do Frank Miller na saga “Cavaleiro das Trevas” onde ele fez um Superman “escoteirão” e certinho para contrastar com o Batman, mas isso é apenas uma vertente do Superman, uma linha temporal, uma estória, mas o verdadeiro Superman é aquele do Christopher Reeve, o dos quadrinhos, ele é um personagem que ajuda as pessoas, ele vê uma criança doente e com fome e decide aplacar como no quadrinho do Alex Ross “Superman – Paz na Terra” onde ele quer acabar com a fome no mundo e começa a levar comida pra todos que precisam, esse é o Superman que eu adoro e espero muito ver esse Superman nas telas. Eu sinto que o Henry Cavill quer esse Superman, então eu espero que a DC nos apresente nos próximos filmes do Superman um herói mais clássico, porque eu confesso que não quero ver apenas um Superman sombrio, eu entendo o caminho do Superman nesses filmes, mas quero muito vê-lo mais relaxado tipo “Smallville”, pacato, porque o Superman é um cara do interior, tipo, se ele fosse do Brasil ele seria do interior de São Paulo, ou de Minas ou do Rio de Janeiro. Ele é um cara simples, que adora a mãe dele, come torta de maçã, que brinca com o cachorro na fazenda que tem a namorada dele, a Lois, ele é um cara bacana, uma pessoa simples, mas que pode ser um herói também, ele tem todo aquele poder, mas ele não é arrogante e é isso que é bonito no Superman e é por isso que eu o faço com a voz absolutamente humana. Eu não faço uma voz grave, faço com uma voz mais suave. No início, as pessoas falavam “seu Superman tá horrível, muito suave para a voz de um herói!”, mas eu faço o Superman com emoção, com sentimento.

Plateia: O que você acha que deveria mudar no Universo DC dos cinemas?
Briggs: O que eu penso é mais uma critica, não apenas ao Universo DC, mas a Marvel e a todos os filmes de cinema, está tudo praticamente a mesma formula. Eu gostaria que eles fizessem o Batman, Superman, Mulher Maravilha na televisão, em seriados bem feitos tipo os da HBO, imagina só, uma série do Batman na HBO, aquele Batman raiz, onde mostraria ele, não salvando o mundo, mas combatendo a corrupção, combatendo vilões, até mesmo o Coringa, mas que fosse bem pé no chão como a Marvel fez com o Demolidor.

Plateia: Qual personagem você gostaria de reprisar? (Um personagem que te marcou e você não faz mais).
Briggs: Eu gostaria de reprisar na verdade dois personagens, o Daggett (“Os Castores Pirados”) e o Freakazoid. Na verdade eu gostaria que fizessem uma nova temporada de Freakazoid, já que o personagem tem tudo a ver com a atualidade, com a gente e a internet. Imagina o Freakazoid com os memes, um desenho original de 1994/95, naquela época não tinha meme, imagina o Freakazoid vendo um meme do cara do “Game of Thrones”? Do Homem Aranha? Imagina ele vendo essas coisas, seria muito divertido tê-lo de volta hoje.

Plateia: Você está dublando algum anime ultimamente?
Briggs: No momento estou dublando dois animes, mas não posso revelar o nome ainda. Um deles é bastante difícil, pois tem que gritar quase toda a hora, mas o outro é mais tranquilo, divertido e ambos os personagens são legais, vocês vão gostar.

 

Uma palestra descontraída e divertida, Guilherme Briggs nos mostrou sua simplicidade, seriedade com a profissão de dublador e o porque é considerado um dos melhores dubladores do Brasil.

Jessica Potter

Formada em História, Escritora e amante do Universo Geek.

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