Franquias: O Fracasso do Demolidor nas Telonas

É inegável que o personagem Demolidor é um dos heróis que conseguiu chegar ao auge do sucesso, assim como outros personagens da Marvel como o Homem de Ferro e o Capitão América, mas sabemos que este sucesso somente veio após a produção da sua série solo pela Netflix, ao qual já entrou em uma terceira e já elogiada temporada.
Como tudo tem uma história e toda história é feita de altos e baixos, para o Demolidor não foi diferente, sua estória foi adaptada primeiramente para os cinemas no ano de 2003, na época a Fox ainda era a detentora dos direitos cinematográficos do personagem (algo que mudou a partir de 2012, pois por falta de uso, o contrato estipulava que se passasse certo período de desuso o personagem voltaria para a Marvel e foi o que aconteceu), assim logo após o sucesso nos cinemas pela Sony do filme “Homem Aranha” (2002), a Fox decidiu em conjunto com a ainda independente Marvel Studios produzir um filme do herói Demolidor, tirando das HQs uma adaptação das estórias da “Saga Elektra”, “O Homem Sem Medo” e “A Queda de Murdock”, todas escritas pelo maior quadrinista de todos os tempos (minha opinião): Frank Miller.
O filme em si não foi um grande sucesso como seu antecessor “Homem Aranha”, acabou de certa forma decepcionando nas bilheterias e tendo críticas mistas, mas mesmo assim o resultado pareceu satisfatório para a Fox que em 2005 decidiu produzir um spin-off de uma de suas personagens, este foi “Elektra” filme que deu continuidade aos eventos de “Demolidor – O Homem Sem Medo”, mas que acompanha a estória de Elektra Natchios a namorada do herói que fora morta pelo Mercenário no filme dele, mas acabou revivida por Stick, assim dando continuidade em seu filme solo. “Elektra” foi outra decepção, além de ter sido massacrado pela crítica e público, o filme não foi nada bem nas bilheterias sendo um total fracasso.
Neste artigo vamos relembrar um pouco destes dois filmes que precederam o sucesso que conhecemos hoje na Netflix, vou analisar os pontos fortes e fracos de cada filme e o que poderia ser melhorado.
Lembrando que tudo escrito aqui é apenas minha opinião e cada um tem a sua.

 

Demolidor – O Homem Sem Medo

Em 2003 estreou nos cinemas “Demolidor – O Homem Sem Medo”, com direção de Mark Steven Johnson e estrelado por Ben Affleck, Jennifer Garner, Michael Clarke Duncan e Colin Farrell. O filme apresenta o herói de rua Demolidor que passa por um período de incertezas sobre as suas atividades, de dia ele é conhecido por ser o advogado Matt Murdock, um homem cego que ajuda e defende causas de pessoas inocentes e que geralmente não tem como pagar, mas a noite ele age como juiz e júri na forma do herói Demolidor que entra em ação toda vez que a justiça falha. Matt é filho de um boxeador falido que foi morto pelo misterioso Rei do Crime e ainda busca vingança pela morte de seu pai. Certo dia, ele conhece uma jovem grega chamada Elektra Natchios, eles acabam se apaixonando, mas seu envolvimento é interrompido quando o Mercenário mata o pai de Elektra que pensa que o assassino é o Demolidor. Procurando vingança, Elektra vai atrás do suposto assassino e ao encontrá-lo descobre ser aquele que ama, Matt Murdock. Elektra descobre que o verdadeiro assassino é o Mercenário e parte para cima do vilão que a mata facilmente, o Demolidor foge para uma igreja e ao chegar lá enfrenta o Mercenário o incapacitando, descobrindo que o Rei do Crime é Wilson Fisk, o Demolidor sai atrás dele e finalmente consegue a sua vingança ao lutar contra o seu maior inimigo. O Demolidor coloca o Rei do Crime e o Mercenário na prisão, encontra uma pista de Elektra e acaba por continuar na sua cidade a combater o crime e levando a justiça a todos.

 

Análise: Esta não foi à primeira adaptação em live-action do herói, em 1989 o Demolidor ganhou uma versão em live-action no filme “O Julgamento do Hulk” onde contracenou com o famoso e admirado (por muitos) Hulk da TV Lou Ferrigno. Bem, mas vamos nos ater ao filme de 2003 produzido pela Fox, que bem que tentou emplacar o mesmo sucesso que fez a Sony com o “Homem Aranha” (2002) de Sam Raimi, mas infelizmente no caso da Fox com o Demolidor o roteiro e outros elementos acabaram mais ajudando para o fracasso do filme.
Devo ressaltar primeiramente o roteiro, muito além do cartunesco é cheio de furos e acontecimentos sem explicação, como no caso de Matt que para todos os efeitos é cego, mas ao que parece enxerga melhor que um ser humano comum e ninguém parece se incomodar com isso, pode-se notar isso quando Matt perde a visão e ele diz ao pai que ouviu o medico dizer “da sala dele” que não poderia mais voltar a enxergar, o pai de Matt por sua vez leva essa revelação numa boa. Outra situação absurda é a pequena luta entre Matt e Elektra no parque, Elektra até se impressiona pelas habilidades de luta de Matt, mas depois de pular, girar e ser um verdadeiro ninja da cidade ela simplesmente dá seu nome e vai embora como se fosse uma coisa comum, quer dizer, esse pessoal de Hell’s Kitchen deve estar muito acostumado em ver um cego sabendo lutar e ouvindo melhor que um morcego.
Falando em morcego, esse é outro ponto ao qual queria ressaltar, esse filme parece que estava prevendo o futuro, pois elementos gritantes já estavam revelando que Ben Affleck um dia se tornaria o Batman, primeiro por ele morar praticamente em uma caverna, o apartamento/container de Matt é praticamente uma “batcaverna”, cheio de aparelhagens que o ajudam a esconder sua dupla jornada, claro que o que mais assusta é onde Matt dorme, parece mais um caixão só que com água, que até entendo que ele use para abafar os sons da cidade, mas convenhamos que o local é meio sinistro. Outro elemento que ressalta o futuro Batman é em um momento da luta entre o Demolidor e o Mercenário na igreja, de repente vários morcegos acabam voando em cima deles, quando vi essa cena dei uma grande gargalhada pelo momento “deja vu” do filme.
Agora vamos para o próximo fracasso do filme: Ben Affleck. Tudo bem, eu considero Affleck um ótimo ator (até mesmo um bom Batman), mas para encarar um personagem tão sombrio e cheio de dilemas quanto é o Demolidor, não senti que ele não estava preparado, até penso que a culpa não foi dele, mas do roteiro mau escrito e muito mau adaptado das estórias do herói escritas por Frank Miller, mas mesmo assim, Affleck ainda poderia ter se esforçado um pouco mais, principalmente ter feito um laboratório melhor em como ser um cego, pois quando ele esta dando vida a Matt Murdock parecia um retardado com a boca aberta e os olhos de peixe morto e não digo isso por conta das lentes cinzas (nem sei se aquilo era lente mesmo), mas pelas pálpebras sem vida que ele expunha, dava até agonia só de olhar.
Penso que como Matt Murdock, Ben Afleck não convenceu e como Demolidor também não, pelo menos até a cena em que ele presencia a morte da Elektra, daí em diante ele conseguiu tomar as rédeas do filme e se tornar realmente o “Homem Sem Medo”.
Mas ai você me pergunta, poxa, mas daí em diante não é praticamente o final do filme? Pois é, pra você ver como o roteiro é ruim, porque é apenas dessa parte para o final que eles realmente adaptam a HQ “A Queda de Murdock” e não é possível que alguém na face da Terra consiga manchar essa obra prima de Frank Miller.
Bom, apesar de TODOS esses elementos ruins, o filme traz algumas coisas boas: Um bom elenco. Aqui temos (para a minha surpresa, pois só prestei atenção dessa ultima vez em que assisti) Jon Favreau (no futuro ele interpreta Happy Hogan e ainda é o responsável por dirigir o primeiro filme da Fase 1 da Marvel: “Homem de Ferro”) como Foggy Nelson o amigo egoísta e o alivio cômico da trama, Jennifer Garner como a linda ninja iniciante Elektra Natchios (gostei muito da transformação dela, de rica inocente para uma ninja vingadora, iniciante claro, mas que deu conta do recado e foi fabulosa na melhor cena do filme), Colin Farrell como o Mercenário (não poderia ser outro ator, pois o Mercenário é um psicopata assassino e Colin conseguiu transparecer toda essa loucura na tela) e por último e não menos importante Michael Clarke Duncan como o Rei do Crime (apesar de descaracterizado, Michael soube trazer a elegância e o poder que o Rei do Crime tem sobre todas as pessoas ao seu redor).
Não posso esquecer-me de comentar a melhor cena do filme: A morte de Elektra. Depois de quase duas horas vendo as bobagens de Matt tanto como advogado quanto como herói, essa cena do telhado consegue tirar um pouco do fôlego, por ser uma cena rápida e ao mesmo tempo uma boa adaptação das HQs, pois essa cena chocou muitos leitores que não esperavam que Elektra fosse morta pelo Mercenário e da maneira que foi, com seu próprio sais, é uma cena importante, pois marca profundamente a maneira de ver o mundo de Matt e o transforma, para o bem e para o mau. Essa cena também transforma Elektra que é revivida tempos depois, mas essa parte vou comentar na próxima analise.

 

Enfim, “Demolidor – O Homem Sem Medo” é um bom filme de “Sessão da Tarde”, diverte e distrai, mas não consegue ser, nem dar a real importância para um personagem tão sombrio e grandioso quanto é o Demolidor, infelizmente tenho que comparar e dizer que a Netflix está fazendo um trabalho espetacular, pois de nenhuma maneira tira a essência do personagem e a cada temporada cativa o público a acompanhar a vida desse lutador cego. Pode ser que o maior erro da Fox foi ter decidido produzir um filme do personagem, como vemos hoje em dia, seriados podem causar mais impacto e prender o público com estórias mais completas e complexas do que filmes incompletos de duas horas, pois alguns personagens tanto de quadrinhos como de livros tem uma capacidade maior de serem desenvolvidos e fazer sucesso em formato de filmes ou de séries, isso depende muito do personagem e do quanto a empresa desenvolvedora está disposta a investir, desde o roteiro até os efeitos especiais.

 

Elektra

Em 2005 “Elektra” estreou nos cinemas, com direção de Rob Bowman e estrelando Jennifer Garner, Goran Visnjic, Kristen Prout, Will Yun Lee e Terence Stamp. O filme é um spin-off de “Demolidor – O Homem Sem Medo”, onde mostra o que houve com Elektra após ser morta pelo Mercenário em Hell’s Kitchen. Aqui Elektra é torturada pelo passado, obcecada por sua morte e seu misterioso renascimento, apesar de ter sido salva e treinada por Stick na arte rígida do ninjutsu, ela não consegue controlar a fúria que sente pela morte dos pais, assim Elektra parte para o exilio e se torna uma perigosa assassina profissional. Ela recebe um contrato que a impelia a matar um pai e uma filha, mas Elektra acaba se afeiçoando a eles e não cumpri o contrato. Subitamente o Tentáculo ataca o pai e a filha e Elektra acaba no meio deles salvando a vida dessa pequena família. Elektra descobre que a filha é na verdade o Tesouro que o Tentáculo tanto procurava para ajudar a travar a guerra milenar entre o bem e o mal, Elektra intervém a favor da garota e seu pai e ao mesmo tempo em que tenta protegê-los ela descobre mais sobre a misteriosa morte de sua mãe. Ajudada por Stick e pela garota, Elektra consegue deter o Tentáculo ao matar o responsável pela morte de sua mãe e retirar o alvo da cabeça da garota, dando-lhe uma nova chance de viver.

 

Análise: Esta foi à segunda vez que Hollywood tentou trazer a vida uma personagem feminina de quadrinhos em seu próprio filme solo, antes de Elektra foi à vez da Mulher-Gato que em 2004 ganhou um filme solo, que é considerado hoje um dos maiores fiascos do cinema. Infelizmente “Elektra” trilhou os mesmos caminhos da personagem da editora concorrente e acabou sendo um grande fiasco nos cinemas, sendo que a salvação para as personagens femininas veio apenas em 2017 com a produção de “Mulher-Maravilha”, um dos maiores sucessos de filmes de heróis dos últimos tempos.
Bom, mas vamos voltar para o que interessa “Elektra”, um filme que prometeu muito e que acabou entregando quase nada, uma decepção, pois esperava muito mais de uma personagem tão mortal e ardilosa quanto é Elektra, nas HQs hoje em dia Elektra não é mais uma vilã, mas mesmo assim ela ainda deixa um bom rastro de sangue pelas paginas das HQs como uma anti-heroína.
O filme começa bem, adapta a estória de Elektra como uma lendária guerreira que nasceu para equilibrar as forças do bem e do mal incorporadas nas facções conhecidas como O Casto e O Tentáculo. Até aí tudo bem, é um bom começo para animar, mas com o passar do tempo o filme vai decaindo em pura enrolação, tédio e personagens sem noção, Elektra parece perdida em meio a um roteiro parado e sem vida, realmente o roteirista queria matar de tedio o espectador que fosse ver esse filme, além de tirar a essência da personagem na maior parte do filme ainda introduz uma estória fora da casinha chamada O Tesouro, esse “Tesouro” era uma arma que poderia ser usada tanto para o bem quanto para o mal e ao invés desse “Tesouro” ser a própria Elektra me colocam uma garota (insuportável, diga-se de passagem) como praticamente a protagonista do filme.
Pessoalmente eu detesto esse filme por conta dessa garota, chamada Abby, além de ser chata, insuportável e sem educação, ela dá uma de sabe tudo e tenta a todo o momento (por querer ou não) atrapalhar a vida de Elektra.
O momento em que realmente me faz espumar é quando ela me aparece com o visual idêntico ao da Elektra. Pelo amor de Deus! O que é isso? Quem teve a ideia idiota de contratar uma Elektra mirim ou uma criança para fazer se passar por Elektra? Sério? Não tinha um roteiro pior pra escolher?
Além de ser uma estória clichê e sem importância real esse “Tesouro” no final simplesmente é esquecido por ambos os lados pelo simples motivo do cordão que a Abby carregava ter se quebrado. Agora a duvida que fica é: Que importância tinha esse cordão? Ela ganhou de quem? Quem era a mãe dela para ser morta pelo Tentáculo? Se essa garota fosse realmente importante por que o Tentáculo não continuou atrás dela? E o mais importante, se o cordão era o que a fazia importante por que o Stick não o destruiu assim que o viu, evitava assim o monte de bobagem que o espectador é obrigado a assistir.
Pois é já deu para notar como eu detesto essa garota, que em minha opinião se ela não existisse o filme tinha salvação, assim como foi o seu antecessor “Demolidor – O Homem Sem Medo” em que Elektra e o Mercenário foram à salvação, o Demolidor poderia ter feito uma participação nesse filme nem se fosse apenas no final.
Tirando a estória ridícula do “Tesouro”, pode-se salvar todas as partes do filme em que Elektra está trajada com o seu uniforme vermelho, nestas poucas partes o filme parece ganhar um novo tom e cresce, pois Elektra é uma grande personagem, uma guerreira que deixa muito herói de cara no chão, sua luta final com o assassino de sua mãe foi muito bem feita, quando achamos que ela esta perdida, Elektra se levanta e dá o golpe final, outra cena bacana é quando Elektra mata Typhod com um de seus sais jogado a metros de distancia.

 

Pois bem, “Elektra” tinha tudo para ser um grande filme de personagem feminina das HQs, mas pecou pelo excesso, quis mostrar uma Elektra que não existe, uma heroína, uma salvadora com consciência e isso ela não é até hoje, Elektra é conhecida por sua frieza, agilidade e sua grande habilidade em matar, sendo uma ninja excepcional que tanto o lado do bem quanto o mal quer como aliada, hoje ela é uma anti-heroína que assim como o Justiceiro faz justiça seguindo suas próprias regras, mas mesmo quando voltou à vida ela demorou em se ajustar novamente. O roteiro poderia ter focado mais nesse retorno de Elektra, na sua missão de se aprimorar e de escolher um lado, sem a estória clichê de encontrar uma família que a faça repensar em suas ações, se for assim que encontrasse um povoado ou uma cidade assim como o Demolidor que só não se aliou as forças do mal por ter Hell’s Kitchen para cuidar.
Elektra possui boas estórias nas HQs, seja solo ou não e dava muito bem para ter adaptado uma dessas estórias e ter trazido a vida de novo a verdadeira Elektra, uma pena pois a atriz Jennifer Garner estava ótima no papel.

 

 

E este é o fim da saga do Demolidor nas telonas, sem fazer muito barulho e com pouco sucesso logo o projeto de uma continuação foi engavetado e assim sem planos para uso do personagem (segundo a clausula contratual), em 2012 a Fox teve de devolver o Universo do Demolidor para a Marvel, não sendo de tão ruim, pois logo a Marvel deu um novo recomeço e um novo lar para o Demolidor que foi reinventado, modernizado e trazido a realidade pela Netflix na serie de heróis de maior sucesso da atualidade que já está em sua terceira temporada pelo streaming.

Jessica Potter

Formada em História, Escritora e amante do Universo Geek.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *